Região Oeste da Bahia, perspectivas para implantação de produção intensiva de bovinocultura de corte

Além de um sem números de fatores  favoráveis, a região conta  com uma enorme boa vontade dos prefeitos municipais em trazer empreendimentos agroindustriais para a região. O assunto é tema do artigo do Prof.Guilherme Augusto Vieira, Médico Veterinário,MSc*.

Alimento Seguro (30/06/2010) -- Leia a seguir a íntegra do artigo:

 

I - Introdução

O Brasil possui o maior rebanho comercial do mundo, com 220 milhões de cabeças, sendo uma das maiores atividades econômicas do agronegócio brasileiro, contribuindo significativamente para a pauta de exportações do complexo cárneo (CNPC,2008).

A bovinocultura de corte é a atividade de maior desempenho econômico no Estado da Bahia, tendo apresentado uma evolução significativa, em termos quantitativos e qualitativos, entre os anos de 1995 – 2006. A atividade lidera na região nordeste com um rebanho de 11 milhões de cabeças, com maior concentração nas regiões sudoeste e extremo sul do estado (SEAGRI – 2006).
Apesar deste ótimo desempenho da bovinocultura de corte brasileira, a nossa produção é totalmente extensiva, sendo que apenas 4 % da nossa produção é realizada de maneira intensiva ( Vieira,2008). Na Bahia ainda não dispomos de dados quanto a produção intensiva de bovinos de corte, sendo uma atividade incipiente.

A Região Oeste vem se caracterizando nos últimos 30 anos como uma região produtora de grãos, destacando-se as culturas de milho, soja e algodão. O Município de Barreiras é a Cidade Pólo da Região, catalisando todos os processos produtivos da região.

A fartura de grãos e sub-produtos tem disponibilizado ingredientes das rações concentradas a preços  competitivos, possibilitando a implantação de produções pecuárias, inclusive a produção de bovinos em sistemas de confinamento e semi-confinamento.

O presente artigo tem como objetivo realizar uma breve análise da região oeste da Bahia e avaliar suas potencialidades visando à produção intensiva de bovinos de corte, já que oferece todas as condições estruturais e econômicas para a atividade, conforme pretende demonstrar o artigo.

II - A Região Oeste da Bahia

Quando se aborda sobre o oeste baiano no restante do Brasil pensa-se logo no Município de Barreiras. Mas na verdade o oeste baiano é uma região composta por 39 municípios, com uma população de 1 milhão de habitantes , ocupando uma área de 150 mil km2 , correspondendo a uma vez e meia o Estado de Santa Catarina. Possui 14 milhões de hectares, sendo que oito milhões de hectares correspondem à área de solo sob vegetação de cerrados com água e clima favoráveis à agricultura e à pecuária dos quais menos de dois milhões de hectares estão sendo efetivamente utilizados. Tornou-se a principal fronteira agrícola do Estado da Bahia e do Nordeste, (MENDONÇA, 2006; JORNAL NOVOESTE 2005).

Os solos são profundos, diversificados, com boa constituição física e facilmente mecanizáveis, ocorrendo desde os latossolos distróficos aos cambissolos eufóricos, adaptáveis as mais variadas opções de cultivo agrícola. Sua geografia é constituída por chapadas, encostas e vales, com cobertura vegetal tipo cerrado, floresta e caatinga. A região possui uma bacia hidrográfica de singular suporte para projetos de irrigação, composta por rios perenes e de volume d’água suficientes com destaque para os rios Grande, Corrente e Carinhanha, todos tributários do Rio São Francisco ( BARREIRAS,2004;SANTOS JÚNIOR,2005).

Com relação aos municípios da região Oeste da Bahia, destacam-se os municípios de Barreiras (produção de algodão, milho, soja, café); São Desidério e Luiz Eduardo Magalhães (produtores de soja,algodão e café). Há outros muncípios produtores na região, citando Correntina, Riachão das Neves,Formosa do Rio Preto,Jaborandi Coribe e Cocos. De acordo com o Programa de Desenvolvimento Regional Sustentável do Oeste da Bahia ( PDS/CAR -1997), os municípios da Região oeste possuem uma boa infra-estrutura industrial, comercial , bancária e outros serviços de grupos empresariais modernos, tendo como pólo central e principal o município de  Barreiras, que de acordo sua dinâmica produtiva e comercial, confunde-se como o próprio oeste baiano.

Sua localização estratégica em relação a importantes capitais, como Brasília, Palmas, Salvador e Goiânia, bem como, em relação a portos, sobre tudo o de Salvador, faz da região um local privilegiado.

III – Principais Produtos Agrícolas da Região Oeste da Bahia

A região oeste do Estado da Bahia, tradicionalmente ocupada pela pecuária extensiva, conheceu um desenvolvimento da atividade agrícola sem procedentes nos últimos 20 anos. Com base em financiamento e/ou recursos próprios, produtores rurais investiram na expansão da produção de grãos e fibras (soja, milho, arroz e algodão, principalmente), café, fruticultura irrigada e pecuária (bovina, suína e avícola). Boa parte destes produtores é originária de outras regiões do país e até do exterior (por exemplo, portugueses e americanos). Trata-se de uma agricultura tecnificada, mecanizada e com uso relativamente alto de insumos. (Relatório BNDES/EMBRAPA, 2007).

Atualmente são cultivados cerca de 1,7 milhões de hectares na região oeste, sendo que 935.000 hectares são de soja. O restante fica para o milho, algodão, café, sorgo, arroz, feijão e demais culturas (ASSOCIAÇÃO DOS AGRICULTORES E IRRIGANTES DA BAHIA,2007).

A região Oeste da Bahia, única produtora de soja no estado, responde por 4% da produção nacional e 56% do total produzido no Nordeste (JORNAL DA MÍDIA, 2007).

O quadro 1 demonstra uma síntese da safra agrícola 2007/08 do oeste baiano, realizado pela Associação dos Agricultores e Irrigantes da Bahia (2008)

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IV – Produção Agroindustrial do Oeste Baiano

A necessidade da integração agricultura & pecuária tem arrastado a linha de produção animal das áreas tradicionais para as áreas produtoras de grãos, visando preferencialmente contemplar a variável custo na produção de rações.

Diante desta perspectiva observam-se os complexos agroindustriais produtores de aves e suínos instalados nas áreas de grãos do Estado de Goiás, evidenciando-se ainda o aumento na produção leiteira deste Estado, onde atualmente ocupa a segunda colocação na produção no Brasil. Recentemente o Estado do Mato Grosso em suas fronteiras agrícolas tem implementado a prática de produção da pecuária de corte intensiva, principalemente nos municípios de Nova Mutum e Alta Floresta.

Quanto à questão do processamento e beneficiamento de grãos, o Oeste baiano apresenta um diferencial competitivo em relação ao restante do país, no qual 90% da soja colhida na região
é processada internamente  pelo parque agroindustrial localizado nos municípios de Barreiras e Luiz Eduardo Magalhães, que abrigam os empreendimentos da Cargill e Bunge, respectivamente. Em 2005, o complexo soja, abrangendo grãos, farelos , óleo bruto,refinado e demais produtos, respondeu por US$ 377 milhões das exportações do agronegócio baiano, o equivalente a 24% do total (O AGRONEGÓCIO BAIANO,2006).

O oeste baiano conta também com duas fábricas de adubos além de outras empresas que fornecem insumos para a agricultura e pecuária.

Em relação a frigoríficos, para atender a um rebanho de 1,5 milhões de  cabeças de bovinos (AGRONEGÓCIO BAIANO,2006), a região oeste conta com um moderno frigorífico instalado no Município de Barreiras sob Inspeção federal, possuindo uma capacidade de abate de 500 animais / dia, sendo que a sua planta é multifuncional no qual pode abater ainda caprinos, ovinos e suínos (FRIBARREIRAS, 2007). Há também um frigorífico sob inspeção estadual com capacidade de abate de 100 animais/dia, localizado no município de Santa Maria da Vitória.


V - Fatores diferenciais do oeste baiano para se tornar uma região de produção intensiva de pecuária de corte

Observa-se um variado espectro de fatores que propiciam a instalação de um novo pólo de avicultura, suinocultura e bovinocultura de corte e leite na região oeste da Bahia.
Além do inegável potencial elevado na produção e oferta de grãos, evidenciam-se na região, vantagens competitivas para o desenvolvimento de sistemas agroindustriais, embora se evidencie alguns aspectos estruturais na região que precisam ser mais bem estudados:  como a maioria dos transportes de soja ocorra no modal rodoviário, mas  já existem estudos visando a implementação da hidrovia do Rio São Francisco . Recentemente foi anunciada a contratação
de um projeto executivo para a implantação da linha férrea que ligará o município de Luís Eduardo Magalhães a Brumado. O modal ferroviário deverá escoar no futuro toda a produção da região Oeste. Com um traçado de 525 Km a ferrovia Oeste-Leste será integrada à rede já existente da FCA, transportando as commodities agrícolas até o porto mais viável, segundo definirá o projeto de implantação (AIBA,2007).
Outro fator relevante é a localização geográfica da região que é considerada estratégica em relação a centros consumidores como a região norte, nordeste e centro-oeste.Destaca-se também a mentalidade de produção empresarial implementada na região, agroindústrias instaladas, incentivos governamentais municipais e estaduais, além de linhas de fomento por  parte dos bancos regionais e federais.

VI – Vantagens para o Produtor
De acordo com Haddad (1989), há inúmeras vantagens para a adoção de produção intensiva na bovinocultura de corte:

- Redução da idade do abate do animal, incrementando a taxa de desfrute ( aproveitamento econômico do rebanho);
-Permite elevada produção de adubo orgânico ( pode se tornar uma alternativa econômica);
-Acelera o giro do capital, com retorno mais rápido dos valores investidos na engorda;
-Possibilita o aproveitamento de resíduos agroindustriais (no caso da região oeste da Bahia cabe perfeitamente);
-Reduz a ociosidade dos frigoríficos na entressafra.
De acordo com o mesmo autor (1995) e seguindo tendências,  a viabilidade econômica da produção intensiva na pecuária de corte evidencia-se com :

Inserção em um sistema integrado de cria/recria –engorda, notando-se uma diminuição do tempo de abate, liberação de áreas de pastagens para outras produções;
Localização em áreas de agricultura avançada, pois há obtenção de fontes para arraçoamento dos animais, barateando o custo de produção da nutrição dos animais confinados;
Implementação de sistemas de avaliação de carcaças, utilizando animais jovens e conseqüentemente os produtores introduziriam as tecnologias de produção com maior eficiência;
Melhor profissionalização na comercialização dos produtos oriundos deste tipo de produção, conseqüentemente ativando a tal sonhada aliança mercadológica na cadeia produtiva da pecuária bovina, gerando por força de mercado uma melhor remuneração do produtor.


VII - Considerações

Diante do breve estudo exposto, verificam-se potencialidades estruturais e conjunturais para que o oeste baiano torne-se uma grande região de produção intensiva de gado de corte, devido principalmente a sua forte produção de grãos que se torna uma grande vantagem competitiva na produção de rações.

Um dos gargalos apontados pelos especialistas que dificulta a implementação de confinamentos e semi-confinamentos em pecuária de corte é a inexistência de excedentes agrícolas e o não aproveitamento destes resíduos , o que não se observa na região oeste baiana, onde há uma grande produção de grãos e há agroindústrias que processam toda soja na região.
O confinamento de bois pode ser uma ótima alternativa econômica para todos os produtores da região oeste, adicionando renda para dos pequenos aos grandes produtores.

Além de um sem números de fatores  favoráveis, a região conta  com uma enorme boa vontade dos prefeitos municipais em trazer empreendimentos agroindustriais para a região.

Vale a pena conhecer in loco a região oeste da Bahia.

VII – Referências

- BAHIA. Governo do Estado da. Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR).Plano de Desenvolvimento Regional e Sustentável (PDRS).Oeste da Bahia,1997;

- BARREIRAS,Prefeitura municipal de. Dados Históricos.Barreiras:Portifólio,2004;

- EVOLUÇÃO DA SOJA NO ESTADO DA BAHIA DISPONÍVEL em : http://www.bndes.cnpm.embrapa.br/textos/evolu1.htm acesso em 30/05/07

- Ferrovia oeste-leste: integração e competitividade para a região oeste Disponível em: <<http://www.aiba.com.br/notícias>> acesso em 16/05/07;

- - HADDAD, Cláudio Maluf – Condições básicas para o confinamento In: PEIXOTO,A.M. (Coord.) O confinamento de bois, São Paulo:Editora Globo,1989;

- _______________________ , - Produtividade das Pastagens in : Curso de Bovinos de Corte . Centro de Treinamento Supre Mais , Mogi Guaçú – SP, 1995;


- MENDONÇA,J.O. – O potencial de crescimento de grãos no oeste da Bahia In Revista Bahia Agrícola,v.7,n.2, abril,2006,p.38-45;

- O AGRONEGÓCIO BAIANO 1995 -2006 – Secretaria de Agricultura e Reforma Agrária – Governo da Bahia, 2006, 108p.

- Oferta de grãos na Ba estimula pólo avícola – disponível em : <http://www.pioneersementes.com.br/AtualidadesNoticiasDetalhe.aspx?Id=2316> acesso em 17/10/2007;
- Produção de soja no oeste baiano cresce 18,4% - Disponível em : http://www.jornaldamidia.com.br/noticias/2007/05/04/Bahia/Producao_de_soja_do... acesso em 10/05/07


- Região Oeste da Bahia . Jornal Novoeste , Barreiras, Maio de 2005;

- Safra agrícola da região oeste – estatísticas -  Disponível em: <<http://www.aiba.com.br/notícias>> acesso em 11/07/08;

- SANTOS JÚNIOR, H.F. – Agronegócios no oeste da Bahia – Um diagnóstico da produção avícola na região de Barreiras , FTC, Salvador, 2005 ( Monografia de graduação – TCC), 50f.;

- Uma feira de negócios para um milhão de pessoas – Disponível em : <<http://www.cetai.com.br/noticias/noticia5255.html?id=9>> acesso em 17/05/2007;

- VIEIRA,G.A. Produção intensiva de Bovinos, Análises e perspectivas –Disponível em : <http://www.alimentoseguro.com.br>> acesso em 11/07/08.

* * Médico Veterinário, Mestre em Alimentos pela UFBA,Professor de Agronegócios do MBA Produção Agropecuária da FVC, Fundação Visconde de Cairú e do Curso de Medicina Veterinária da Unime. Consultor Técnico em Agroengócios da Associação Baiana de Avicultura. gavet@uol.com.br

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